quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Interação entre aprendizado e desenvolvimento

Zona de desenvolvimento proximal: uma nova abordagem

Discutindo a relação entre aprendizado e desenvolvimento, o autor separa dois focos para sua análise: a relação geral entre aprendizado e desenvolvimento e também, o aprendizado e desenvolvimento quando a criança atinge a idade escolar. Parte do pressuposto que o aprendizado da criança começa muito antes de ela frequentar uma escola.

Qualquer situação de aprendizado com a qual a criança se defronta na escola tem sempre uma história prévia. Por exemplo, as crianças começam a estudar aritmética na escola, mas muito antes elas tiveram alguma experiência com quantidades – tiveram que lidar com operações de divisão, adição, subtração e determinação de tamanho. Consequentemente, as crianças têm a sua própria aritmética pré-escolar, que somente psicólogos míopes podem ignorar.” (Vigotski, 1984/2008, p.94)

E somente professores míopes desconsideram esse fato. Porém muitos não fazem uso desses saberes prévios (NDR); e quando atentam para isso, na maioria das vezes o fazem como forma de checagem do já se sabe para ir em frente. Os conhecimentos prévios são instrumento valiosíssimo para o desenvolvimento e aproximação do nível de desenvolvimento potencial (NDP/ ZDP) e o bom uso desse instrumento é, através de questionamentos e proposição de situações-problema fazer o aluno acionar essas experiências prévias e relacioná-las com a nova situação para chegar a uma solução viável.





REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

VIGOTSKI, Lev S. (1984) A Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 2008. p.94.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Piaget - A infância de sete a doze anos

A INFÂNCIA DE SETE A DOZE ANOS

Já sabemos que o desenvolvimento mental é uma construção contínua que mantém em cada estágio as estruturas do estágio anterior, sobre as quais se “edificam” as novas estruturas. No estágio anterior, caracterizado pela inteligência prática, a criança suplementa a lógica pela intuição (esquemas perceptivos) e, até cerca de sete anos avança para a intuição articulada, mais móvel e estável, preparando para o próximo estágio, das operações concretas: começo da lógica, dos sentimentos morais e de cooperação.

Do ponto de vista das relações interindividuais, a criança, depois dos sete anos, torna-se capaz de cooperar, porque não confunde mais seu próprio ponto de vista com o dos outros, dissociando-os mesmo para coordená-los. Isto é visível na linguagem entre crianças. As discussões tornam-se possíveis, porque comportam compreensão a respeito dos pontos de vista do adversário e procura de justificações ou provas para a afirmação própria. As explicações mútuas entre crianças se desenvolvem no plano do pensamento e não somente no da ação material. A linguagem “egocêntrica” desaparece quase totalmente e os propósitos espontâneos da criança testemunham, pela própria estrutura gramatical, a necessidade de conexão entre as idéias e de justificação lógica. (PIAGET, 1964/2010, p.41)

Neste estágio, com mais estruturas mentais e maior mobilidade de pensamento, é possível considerar as ideias do outro, também discutir, oralmente, sobre outras possibilidades de opiniões. Os porquês tornam-se importantes, assim como explicar as próprias ideias e buscar confirmação porque agora aparecem as “experiências mentais”, além das percepções. Há uma busca pela não contradição nas teorias explicativas das crianças.

No início da alfabetização, percebemos traços de estruturas mais rígidas no levantamento de hipóteses sobre o funcionamento do sistema alfabético de escrita e à medida que interagem com outras hipóteses, discutem suas ideias nas atividades em grupo, em duplas ou coletivamente, as crianças conseguem rever suas hipóteses, defendê-las quando são seguras, modificar sua ação diante do objeto de conhecimento, coordenando-as com as dos outros. Se a causa de tudo não está mais somente em si mesmo, é preciso compreender de onde elas podem partir, então. E novas explicações aparecem.

Como já foi dito no início do texto, cada estágio prolonga um pouco do anterior, enquanto prepara as estruturas do próximo estágio; dos sete aos doze anos, estágio operatório concreto, é o momento em que as intuições se transformam em operações de todas as espécies: operações lógicas, aritméticas, geométricas, temporais, mecânicas, físicas etc.

“Uma operação é então, psicologicamente, uma ação qualquer, cuja origem é sempre motora, perceptiva ou intuitiva.” (PIAGET, 1964/2010, p.48)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

PIAGET, JEAN (1964) Seis Estudos de Psicologia. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p.41.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O Desenvolvimento Mental da Criança



Neste capítulo, o autor esclarece que todo desenvolvimento do ser humano (psíquico e corporal) orienta-se, essencialmente, para o equilíbrio.

É, portanto, em termos de equilíbrio que vamos descrever a evolução da criança e do adolescente. Deste ponto de vista, o desenvolvimento mental é uma construção contínua, comparável à edificação de um grande prédio que, à medida que acrescenta algo, ficará mais sólido, ou à montagem de um mecanismo delicado, cujas fases gradativas de ajustamento conduziriam a uma flexibilidade e uma mobilidade das peças tanto maiores quanto mais estável se tornasse o equilíbrio. (PIAGET, 1964/2010, p.14)

Tudo o que é novo causa desequilíbrio, pois exige que se modifiquem as estruturas atuais e se adaptem às novas informações. Pensando nas estruturas mentais, o desequilíbrio causado pela informação nova leva ao movimento de ajuste deste conteúdo, acionando as informações já adquiridas, o que Piaget chama de assimilação e à medida que outras informações chegam semelhantes à anterior, repete-se o movimento de assimilação até o ajuste mais adequado que é chamado de acomodação. Esse processo é contínuo e cada acomodação gera novas estruturas mentais, ou seja, como na comparação feita pelo autor, mais “solidez na edificação” do prédio do desenvolvimento. Os “tijolos” de conhecimentos vão, gradativamente, contribuindo para a maturidade necessária aos novos estágios que exigem amplitude e flexibilidade das estruturas mentais. Somente uma base sólida e ampla (alicerce) suporta construções maiores.

Quanto mais estruturas mentais tem o indivíduo, mais possibilidades de ação sobre o objeto de conhecimento esse indivíduo tem. Por isso a importância realçada pelo autor para os primeiros anos de vida da criança, quando essas estruturas básicas estão sendo construídas e sobre as quais se fará o trabalho de ampliação e flexibilidade (estabilidade gradual) objetivando o equilíbrio final na fase adulta.





REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

PIAGET, JEAN (1964) Seis Estudos de Psicologia. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p.14.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Interferências da oralidade em produção escrita escolar

Da fala à escrita: interferências da oralidade em produção escrita escolar



Reconto: A tartaruga e a lebre, produzido pelo aluno Lucas (4º ano)


Diagnóstico ortográfico

• Não representação do –r em final de palavras: aposta, chama, devaga, luga, brinca, da, acorda, que.

• Não representação do –u nos verbos no pretérito: ganho. jámo, fico, falo, chego, comeso,

• Não representação do –s final: vamo.

• Desconhecimento da origem da palavra: çer, rapoza, doiz, çeu, comeso, cançada, ressove, extava, divagasinho.

• Oposição surda/sonora: jámo, cha (já), guando, sequinte.

• Desconhecimento das regras contextuais: nosa.

• Nasalidade: amanhan.

• Segmentação de palavras: tabom, noçeu, arraposa, atartaruga, chatinha (já tinha) - hiposegmentação .

: de vaga (devagar), di vaga sinhô – hipersegmentação.

• Redução de desinência de gerúndio:andano

• Simplificação da concordância do verbo com o sujeito: eles doiz procurou.

• Não representação do prefixo – ES no verbo estar: tava.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Com a marvada pinga é que eu me atrapaio...oi lá!

Características do Português Brasileiro Popular em uma canção popular


Marvada Pinga

Inezita Barroso

Composição: Ochelsis Laureano

Com a marvada pinga

É que eu me atrapaio

Eu entro na venda e já dou meu taio

Pego no copo e dali nun saio

Ali memo eu bebo

Ali memo eu caio

Só pra carregar é que eu dô trabaio

Oi lá

Venho da cidade e já venho cantando

Trago um garrafão que venho chupando

Venho pros caminho, venho trupicando, xifrando os barranco, venho cambetiando

E no lugar que eu caio já fico roncando

Oi lá

O marido me disse, ele me falo: "largue de bebê, peço por favô"

Prosa de homem nunca dei valô

Bebo com o sor quente pra esfriar o calô

E bebo de noite é prá fazê suadô

Oi lá

Cada vez que eu caio, caio deferente

Meaço pá trás e caio pá frente, caio devagar, caio de repente, vô de corrupio, vô deretamente

Mas sendo de pinga, eu caio contente

Oi lá

Pego o garrafão e já balanceio que é pá mor de vê se tá mesmo cheio

Não bebo de vez porque acho feio

No primeiro gorpe chego inté no meio

No segundo trago é que eu desvazeio

Oi lá

Eu bebo da pinga porque gosto dela

Eu bebo da branca, bebo da amarela

Bebo nos copo, bebo na tijela

E bebo temperada com cravo e canela

Seja quarqué tempo, vai pinga na guela

Oi lá

Ê marvada pinga!

Eu fui numa festa no Rio Tietê

Eu lá fui chegando no amanhecê

Já me dero pinga pra mim bebê

Já me dero pinga pra mim bebê e tava sem fervê

Eu bebi demais e fiquei mamada

Eu cai no chão e fiquei deitada

Ai eu fui prá casa de braço dado

Ai de braço dado, ai com dois sordado

Ai muito obrigado!

Quadro 1 in: CASTILHO, Ataliba Teixeira de. Saber uma língua é separar o certo do errado?

Pronúncia das vogais e dos ditongos

Átonas iniciais podem anasalar-se: enzame, inducação. inté

Desnasalação e monotongação dos ditongos nasais finais: hómi, faláru. dero

Perda do –u final dô – falo - vô

Pronúncia das consoantes

Troca de L por R em final de sílaba e em grupos consonantais: marvado, pranta. marvada – sor - sordado

Iodização da palatal –lh: oreya, véyo. atrapaio – taio - trabaio

Perda do –r final bebê – favô – valô – calô – fazê – suadô –vê – amanhecê – fervê

Morfologia

Perda do –s para marcar o plural que passa a ser expresso pelo artigo: os hómi, as pessoa. pros caminho – os barranco – nos copo – dois sordado



deferente (diferente) – deretamente (diretamente)


trupicando


meaço (ameaço)


pá (pra)


tá – tava


Gorpe (gole)


Desvazeio (esvazio)


Pra mim bebê






Trocas ortográfcas : xifrando – tijela - guela

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Sequência de atividades - gênero oral/concepção escrita

(Primeiras ideias... rs,rs,rs)
Apresentação oral de uma lenda

Apresentação da situação

Alunos de 4ª série (5º ano) farão uma apresentação oral de lendas para alunos da 3ª série (4º ano), como parte final do projeto "Uma lenda, duas lendas, tantas lendas".

Produção Inicial

Os alunos deverão escolher entre as lendas estudadas, uma que queiram recontar oralmente. Nesse momento farão a recontagem para os colegas da classe.

Módulo 1

Análise das exposições ouvindo as observações dos próprios alunos.
Ouvir recontos orais em CD (Abre a Roda Tin dô lê lê).
Analise das marcações do reconto ouvido.

Módulo 2

Orientações para o estudo e preparação do reconto (tarefas de casa).
Filmar o reconto de alguns alunos (aqueles que se dispuserem) para recortes de orientação.

Módulo 3

Registro das expressões que compõem a contagem oral.
organização escrita dessa apresentação.
Eleger duplas que queiram apresentar a mesma lenda e orientá-los na preparação da apresentação com possível uso de recursos (vestimentas, objetos, sons, ...)
Preparar a introdução onde explicarão o projeto desenvolvido e a apresentação da lenda.

Produção final

Apresentação para as salas de 3ª série.

Avaliação

Relato da experência (0ral e escrito)
Comparação com as primeiras recontagens e levantamento das aprendizagens.

terça-feira, 27 de abril de 2010

A Formação do Leitor - 2

A Formação do leitor – depois de “outras leituras”


1- “Dentro” da sala de aula e o “de fora” da leitura:

Penso que Escola e Literatura estão vinculadas por natureza porque se aprende a “viajar” numa leitura contagiante. A questão é: como “viajar” na leitura de tantas obras inspiradoras sem carregar a “bagagem” dos conteúdos, exercícios e medidas avaliativas, enfim, todo “aparato” da escola?

Acredito que seja possível levar outras bagagens: a boa leitura compartilhada, a discussão instigante, o encantamento de quem apresenta a leitura contagiando os futuros leitores, o conteúdo colocado em forma de comparação de trechos de diferentes obras, a leitura sem cobrança... o que amenizaria e, até substituiria aquelas que sobrecarregam a literatura dentro da escola. Acho possível “quebrar” o sentimento de “nudez” e cerceamento da sala de aula despertando a magia da leitura, assim como se “quebram” as paredes de um quarto ou o enfado de longos momentos de espera, uma boa leitura é capaz de fazer desaparecer até as cores de um fim de tarde de outono. Cabe o encantamento da leitura dentro da escola, eu mesma fui “acordada” por “toques” de mestres.

Acredito numa escola que possa despir-se da “armadura” da informação como um fim em si mesma, do “engessamento” das fórmulas e do cumprimento de etapas, vestindo-se do entusiasmo de conhecer, descobrir e saber; e ser, assim, um espaço aprendente prazeroso!

Segundo texto:

2- Voltar a esta reflexão depois das leituras e das discussões é perceber o quanto se acrescentou e o quanto se comprovou das primeiras hipóteses...

Encontrei no livro “Letramento Literário – Rildo Cosson – muito do que já sentia e pressentia na prática da sala de aula: a busca por um “fazer” significativo e envolvente. As tais “outras bagagens” que mencionei estão explicitadas e fundamentadas nas sugestões das sequências (básica e estendida): a motivação, que chamei de encantamento de quem apresenta a leitura; a leitura (acompanhamento da leitura), que coloquei como leitura compartilhada; O conteúdo trabalhado com comparações entre outros textos, aparece nas sequências como diálogo com outros textos... E, claro, a obra de Rildo Cosson amplia e aprofunda as várias interpretações possíveis com propostas que mantém o envolvimento e a curiosidade do leitor.

Penso que Escola e Literatura estão vinculadas por natureza porque se aprende a “viajar” numa leitura contagiante.

Acredito numa escola que possa despir-se da “armadura” da informação como um fim em si mesma, do “engessamento” das fórmulas e do cumprimento de etapas, vestindo-se do entusiasmo de conhecer, descobrir e saber; e ser, assim, um espaço aprendente prazeroso!

Cosson diz: “(...) devemos compreender que o letramento literário é uma prática social e, como tal, responsabilidade da escola. A questão a ser enfrentada não é se a escola deve ou não escolarizar a literatura, como bem nos alerta Magda Soares, mas sim como fazer essa escolarização sem descaracterizá-la, sem transformá-la em um simulacro em si mesma que mais nega do que confirma seu poder de humanização. (...)”

“(...) Ser leitor de literatura na escola é mais do que fruir um livro de ficção ou se deliciar com as palavras exatas de poesia. É também posicionar-se diante da obra literária, identificando e questionando protocolos de leitura, afirmando ou retificando valores culturais, elaborando e expandindo sentidos. Esse aprendizado crítico da leitura literária, que não se faz sem o encontro pessoal com o texto enquanto princípio de toda experiência estética, é o que temos denominado aqui de letramento literário. (...)”

Buscar os contextos, a intertextualidade, repensar valores, compreender diversas possibilidades de olhares, ampliar sua compreensão do mundo (particular e universal), compreender-se humano... Literatura!

terça-feira, 13 de abril de 2010

Abordagem de leitura: Confronto(Drummond) e O sempre amor(Adélia Prado)

                      Confronto (Carlos Drummond de Andrade)
1- Busque os significados da palavra que dá título ao poema ("confronto" ) e encontre a(s) ideia(s) de confronto que aparecem nele.

2- "Bateu Amor à porta da Loucura.
      "Deixa-me entrar-pediu-sou teu irmão..."
Para você, o que os torna irmãos?

3- "Só tu me limparás da lama escura
    a que me conduziu minha paixão."
Você concorda com o que diz o Amor? Se sim, como a Loucura faria isso?
Se não, por quê?

4- A Loucura diz saber que o "Amor vive de engano". O que você pensa sobre isso?

5- Leia a segunda quadra do soneto de Drummond. O que fez com que a Loucura "olhasse" com mais atenção para o Amor?

6- Nos dois tercetos, a loucura permite a entrada do Amor e justifica esse ato. Quais são essas justificativas?

7- No poema  "Confronto", Drummond personifica o Amor e a Loucura para relacionar esses sentimentos.
Adélia Prado também escreve sobre o amor no poema "O sempre amor". Como ela define esse sentimento?

8- Você vê semelhanças e/ou diferenças na definição de amor para os dois poetas?

9- Na sua opinião, qual é a intenção da autora na repetição dos versos: "Amor é a coisa mais alegre / Amor é a coisa mais triste/ Amor é coisa que mais quero." ?

 Um pouco mais....

Monte Castelo


Renato Russo

Composição: Renato Russo

Ainda que eu falasse a língua dos homens.

E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.



É só o amor, é só o amor.

Que conhece o que é verdade.

O amor é bom, não quer o mal.

Não sente inveja ou se envaidece.



O amor é o fogo que arde sem se ver.

É ferida que dói e não se sente.

É um contentamento descontente.

É dor que desatina sem doer.



Ainda que eu falasse a língua dos homens.

E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.



É um não querer mais que bem querer.

É solitário andar por entre a gente.

É um não contentar-se de contente.

É cuidar que se ganha em se perder.



É um estar-se preso por vontade.

É servir a quem vence, o vencedor;

É um ter com quem nos mata a lealdade.

Tão contrário a si é o mesmo amor.



Estou acordado e todos dormem todos dormem todos dormem.

Agora vejo em parte. Mas então veremos face a face.



É só o amor, é só o amor.

Que conhece o que é verdade.



Ainda que eu falasse a língua dos homens.

E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.




O compositor Renato Russo, compôs Monte Castelo para falar do amor. Usando a intertextualidade, "conversa" com o poema de Luís de Camões: " Amor é fogo que arde sem se ver" e com o texto bíblico: "O amor é um dom supremo" escrito pelo apóstolo Paulo. Camões fala do amor Eros (homem-mulher) e a carta de Paulo trata do amor Ágape (altruísta, generoso). Você vê possibilidade de "diálogo" entre esses textos e os que estamos estudando?

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Até Passarinho Passa - Bartolomeu Campos de Queirós

Até Passarinho Passa


“Não conheço,

além do imenso tempo,

nada que tenha existido para sempre.

Até o silêncio passa.

N

ossa casa já não existe. Como tantas outras coisas, ela passou. Mas naquele tempo ela tinha uma pequena varanda forrada de ladrilho xadrez, frio e limpo. Galhos do maracujá cresciam e se enroscavam com ternura na madeira do telhado. E suas flores, brincos roxos de princesa, viviam breves, dependuradas como estrelas em um céu baixo que as mãos podiam tocar. O outro céu ficava muito longe e demandava tempo encontrá-lo. Eu não sabia se os frutos engoliam as flores ou se as estrelas se transformavam em frutos. Os olhos não davam conta de acompanhar as transformações. A natureza era lenta e os olhos muito aflitos.

O

certo é que de repente as flores se despediam sem guerras e os frutos brotavam, devagarinho, em seus lugares. Cresciam sem pressa e amadureciam em seu ritmo. As borboletas, carregadas de arco-íris, pintavam assustadas o ar com sete cores, carregando e seus voos o exagero do poente. Abelhas, procurando doçuras, visitavam o miolo das flores, negociando a música de suas asas pelo mel. As cigarras serravam a tarde invadindo nossos ouvidos com um canto sem perdão. E, se o vento soprava, era para anunciar que um nada transparente e concreto varria o mundo expulsando o calor, afagando com brisa a natureza.

Q

uando o dia suspeitava escurecer, inaugurando a tarde, um sossego rico em paz descansava sobre nossas conversas e incertezas. Longe, as nuvens viajavam ligeiras para o horizonte buscando derradeiros tons nos restos da luz no escuro. A imaginação completaria as orações feitas de segredos insuspeitáveis. E o nosso alpendre, frio e limpo, se fazia lugar para as perguntas, as dúvidas, os enigmas e por vezes as lamúrias. Queixava-se das partidas, das perdas, dos desencontros e da brevidade da vida. A noite fechada, depois de matar o dia, consentia a dança de miúdos insetos em volta da lâmpada de luz branda. Era uma dança circular e agitada, até cair as asas de vidro pelo ladrilho frio e limpo. Morriam de muito dançar, eu me espantava.

M

as, no calor do dia vagaroso, os passarinhos aproximavam para colher as migalhas dos bolos, que caíam de propósito de nossas mãos sobre o ladrilho frio e limpo. Bicavam apressados esses preciosos pedacinhos, como garimpeiros catam em suas bateias tesouros entre areias. Acostumados com nossos olhares permissivos e amáveis, eles circulavam, entre nós, sem sustos, mas com disfarçada intimidade. Nos visitava sem canções mas sem nos negar sua secreta poesia. No corpo dos passarinhos está escrito um poema que assusta até a alma mais desavisada. Sua leveza traz uma festa desmedida, capaz de invejar os mais contidos.

H

avia de tudo em nossa varanda: suspiros, suspeitas e sonhos. Menos o medo, pois a beleza era mais forte e não deixava o tempo nos assustar. Nossa amizade com a natureza persistia acima de todas as coisas e nada nos surpreendia. Nem os mistérios, que eram tantos, tentávamos desvendar. Era bom viver em suposições e cercados de fartos acontecimentos por adivinhar. Cada dia um encanto tomava lugar do outro. O mundo, assim obscuro, exigia um olhar mais delicado, um pensamento mais cauteloso.

E

u possuía, já naquele tempo, alguma pequena tristeza trazida pela chuva fina, pelo absurdo do presente, pelo convite que a madrugada trazia para viver mais um dia. A beleza me sufocava. Essa tristeza não permitia minha vida ser mais completa. Faltava sempre alguma coisa sem resposta, alguma interrogação sem desconfiar da pergunta. Era um incômodo capaz de tornar adoecida a felicidade. Minhas penas não cobriam o corpo nem aqueciam meus pesares. Apenas esfriavam meu coração.

M

as eu não encontrava sinais de tristeza na existência dos passarinhos. Um sempre contentamento brilhava entre suas penas. Todo o universo lhes parecia ser construído apenas de deslumbramentos. Seus pés, com passos miúdos percorriam os quatro cantos do alpendre pelo prazer de andar, sem conhecer a rosa dos ventos. O norte estava onde o desejo apontava. Só exercitavam as asas quando a distância era longa e o vazio muito largo. Uma bonita preguiça eu percebia em seus gestos, quase sempre. Então, esticavam as asas, abrindo-as em concha, cobrindo a cabeça e protegendo os pensamentos como se fossem pérolas. Cada movimento dos passarinhos permanecia gravado em mim como um modelo de rigorosa criação.

N

unca me indaguei, no silêncio do alpendre, se passarinho pensava. Meu espanto e minha inveja eram pelos seus voos. Voar não me parecia tarefa simples. Primeiro era preciso o vazio, o nada, o aberto, o sem-fronteiras. Isso interrompia minha esperança. Eu vivia sempre rodeado de impossibilidades, vigiado por paredes, muros e grades. Minhas asas só exitiam para sonhar. E voar exige deslocamentos. Em sonho o voo é apenas uma mentira. Mas, se os passarinhos não pensavam, eu acreditava que pressentiam a chegada da noite, a ameaça da chuva, o percurso dos ventos.

D

iferenciavam o grão da pedra, conheciam a madureza dos frutos apenas pela cor, observavam a profundeza das poças para os banhos, sentiam a ameaça dos olhares e temiam o perigo das gaiolas. E mais, eles compreendiam que para viver era preciso ninhos, tecidos com gravetos e cuidados, em lugares ocultos e seguros. Mesmo longe da terra eles necessitavam de um abrigo. Ter um ninho é poder retornar, é ter um lugar de repouso, uma referência, um agasalho. E, se eu encontrava, desavisadamente, alguma promessa de outras vidas dentro de seus ninhos, fazia de conta que não via para não gorá-los.

E

como eu amava esses passarinhos! Eram vírgulas delicadas pontuando o vazio e as suspeitas. Quando eles surgiam, em bando ou solitários, meu coração deixava de bater para não assustá-los. Meu corpo ficava imóvel para não impedir suas procuras. Minha respiração interrompida fazia surgir uma pausa necessária para inaugurar uma liberdade mais definitiva. E minhas mãos cruzadas prometiam avisá-los que só os tocaria com o olhar. Eu pensava que para amar passarinho só os olhos bastavam. Mas eu sofria de uma coceira incômoda na palma da mão. Vontade de pentear suas penas com meus dedos.

M

as havia naquele tempo, entre tantos outros, um passarinho que eu mais amava. Ele chegava transportado por um voo raso. Pousava sobre a grade da varanda, olhando por todos os lados. Parecia querer estar só comigo, eu pensava com vaidade. Depois me pedia licença para entrar, como se precisasse. Eu, que aguardava ansioso sua presença, recebia sua chegada como se Deus me visitasse. Percebendo meu consentimento, ele pisava o ladrilho frio e limpo. Andava com cuidado para não se machucar. Ele conhecia os perigos do chão. No ar não existe caminho traçado, todo espaço é direção. Na terra sofre-se de muitos impedimentos. Não me pedia nada, esse amigo amado, nem se mostrava interessado em migalhas. Nossa felicidade era maior: estar face a face, sem susto ou posse. Trazia uma música na garganta, mas nunca pude escutá-la. Ele apreciava em silêncio minha varanda e a amava pelo que havia nela de frio, limpo e quietude.

M

as eu nunca soube o seu endereço. Devia morar perto, entre os abraços das folhas com o telhado. Bastava a tarde se armar para que ele se escondesse, de improviso, entre os ramos e o telhado. Nunca me dizia adeus. Devia acreditar que a vida era para sempre e que depois de cada dia haveria outro dia, eternamente. Também eu não cogitava do tempo, muito embora, e por tantas vezes, ouvia falar do céu, lugar em que todos iam morar para sempre, entre anjos. E passarinho, para virar anjo era fácil. Já possuía asa, leveza e flauta.

A

ssim vivíamos. Nossa varanda era um lugar de visitas. Nela, a natureza, em surdina, floria, crescia, mudava de acordo com as estações. E o meu amigo passarinho aquecia, com seu amor, a paisagem fria e limpa. Mesmo pequena, nossa varanda escondia pólen, exalava perfume, permitia a brisa, assistia ao amadurecimento dos frutos e recebia o dia e a noite sem preconceitos. Minha varanda não dormia. Havia sempre rumores de vida em crescimento, insetos entre suas folhagens e sombras, ruídos de raízes em crescimento. Bastava ter ouvidos para escutar.

T

udo se deu em uma única manhã. Acordei cedo com a madrugada entrando em meu quarto pelas frestas da janela. Uma saudade incômoda me fez levantar sem preguiça. Saí para a varanda carregado por um espanto ainda desconhecido. Não me lembro de ter sonhado. Sempre tive medo da verdade dos sonhos. Mas, como um passarinho, eu pressentia que um inverno havia chegado. Olhei para o chão e vi um pequeno embrulho de penas. Soltei meu coração que passou a bater pelo corpo inteiro. Minhas pernas tremeram e por um instante tentei me convencer de que tudo era um engano. Cheguei mais perto, com os olhos embaçados de perda e susto.

A

li estava meu passarinho, coberto de penas e imóvel. Fiquei escondido num canto da varanda, agora mais fria e limpa. Não sabia quem estava mais morto. Aos poucos, um vazio foi tomando conta do meu mundo. Descruzei as mãos e o passarinho não se assustou. Permaneceu parado, sem mais possibilidades de voos, sem necessidade de ninho, sem se alegrar com a minha presença. Não pensei em pentear suas penas com meus dedos. Continuei fiel às nossas promessas. A água dos meus olhos trouxe para minha boca um gosto de mar. Meu corpo inteiro se afogava numa tristeza exagerada. Não havia remédio capaz de remediar a sua partida, solucei. Tentei me consolar imaginando um céu com anjos e asas, sem dias e noites. Mas nada abrandava meu luto. Chorei baixo como se fosse possível esquecer com as lágrimas a ausência de um definitivo amor.

E

ntre meus guardados havia uma caixinha de papelão colorida, estampada com nuvens e estrelas. Busquei sem revelar para ninguém o seu destino. Forrei com algumas folhas mortas trazidas pelo vento, umedecidas pelo orvalho. Procurei tornar macio seu último ninho. Em volta da casa havia um canteiro de flores. Escolhi uma sombra e cavei uma pequena cova.

D

eitei no fundo o corpo do meu amigo, agora sem canto ou voo. Cobri com terra, ternura e desalento. Encontrei uma pedra rolada e branca como um ovo e coloquei sobre o lugar. Prometi ao meu amigo nunca revelar sua partida nem sussurrar sobre nossa amizade. Guardaria só para mim tamanha saudade. Passei o resto do dia assentado no alpendre frio e limpo, sem olhos para mais nada. Meu coração estava cheio de vazio. Quando a noite chegou fui para a cama definitivamente só, sem ter a esperança como companheira. Nem futuro eu guardava. Com o cobertor enrolei o meu corpo por inteiro. E no escuro da primeira noite, em crua solidão, só um pensamento cruel e claro me acompanhava: até passarinho passa.



QUEIRÒS, Bartolomeu Campos de. Até Passarinho Passa. São Paulo: Editora Moderna, 2003.

terça-feira, 16 de março de 2010

2) “Dentro” da sala de aula e o “de fora” da leitura:




Penso que Escola e Literatura estão vinculadas por natureza porque se aprende a “viajar” numa leitura contagiante. A questão é: como “viajar” na leitura de tantas obras inspiradoras sem carregar a “bagagem” dos conteúdos, exercícios e medidas avaliativas, enfim, todo “aparato” da escola?

Acredito que seja possível levar outras bagagens: a boa leitura compartilhada, a discussão instigante, o encantamento de quem apresenta a leitura contagiando os futuros leitores, o conteúdo colocado em forma de comparação de trechos de diferentes obras, a leitura sem cobrança... o que amenizaria e, até substituiria aquelas que sobrecarregam a literatura dentro da escola. Acho possível “quebrar” o sentimento de “nudez” e cerceamento da sala de aula despertando a magia da leitura, assim como se “quebram” as paredes de um quarto ou o enfado de longos momentos de espera, uma boa leitura é capaz de fazer desaparecer até as cores de um fim de tarde de outono. Cabe o encantamento da leitura dentro da escola, eu mesma fui “acordada” por “toques” de mestres.

Acredito numa escola que possa despir-se da “armadura” da informação como um fim em si mesma, do “engessamento” das fórmulas e do cumprimento de etapas, vestindo-se do entusiasmo de conhecer, descobrir e saber; e ser, assim, um espaço aprendente prazeroso!

quarta-feira, 10 de março de 2010

Leitura marcante - A Formação do Leitor (Regina Zilberman)

Muitas leituras foram marcantes neste meu percurso de leitora, sendo cada uma por um motivo, momento ou circunstância próprios. Porém, ler "O Cortiço" de Aluísio de Azevedo, na confusão natural dos 11 ou 12 anos foi uma experiência devastadora. Penetrei num mundo totalmente avesso ao meu, na época morava numa pequeníssima cidade do interior de São Paulo, onde as casas têm quintal, pomar, as ruas tranquilas permitem brincadeiras e amizades simples (nos dias de hoje ainda é assim). João Romão, a Negra Bertoleza e o cotidiano daquele cortiço romperam os limites do meu "mundinho" constante e previsível (chegava a sentir os cheiros peculiares dos espaços da leitura).
Posso dizer que depois dessa experiência , passei a ver o mundo com outros olhos!!!

terça-feira, 9 de março de 2010

Aptº 403 - Marina Colasanti

Eu, no aptº 206, tão aprisionada (por tanto a fazer) quanto os animais do texto... Querendo voar como a pomba, mas pacífica como o carneiro, busco registrar algumas palavras antes da discussão em sala de aula! rs

Situação aparentemente simples: um solitário (ele), como tantos outros, busca na companhia de animais o remédio para sua solidão. Mas, não são quaisquer animais; uma pomba (lembra paz, liberdade...) e um carneiro (mansidão, ingenuidade...), cuidados com carinho e "paciência" (ruminar de três paciências.) que aos poucos vai se transformando em dependência (A vida sem seus amigos parecia-lhe impossível). Porém, essa dependência egoísta não o privava de momentos de liberdade que negava aos "amigos" (de natureza ainda mais livre que o próprio homem!?). Esse cativeiro começa a "deformar" os atributos de sobrevivência dos cativos (a pomba parecia estonteada - sem senso de direção; e os dentes do carneiro superavam os limites do focinho por falta do exercício do desgaste da alimentação natural).
Avisos são dados: "Arrulhava a pomba, balia o carneiro." Até que algo ( o disparador não importa, mas sim os motivos) desperta a reação furiosa da pomba (diante da liberdade do homem...) e os instintos do carneiro ("o cheiro novo excitou o carneiro...).
Vejo a transformação acontecendo aos poucos: o carinho, o cuidado, a companhia, transformando-se em fúria destuidora causada pelo aprisionamento e pela submissão... Até a paz e a mansidão são capazes de fúria!
Marina deixa "espaços em branco" para exercitar o leitor: "Arrulhos, balidos, milho na palma, capim na mão, ruminar de três paciências..." gostoso de ler!
Quantos mistérios há. na "morada do ser"!

terça-feira, 2 de março de 2010

Odisséia

Lendo o texto , logo chamou minha atenção a repetição da palavra amor, personificando-o; o número de verbos de ação, dando a ideia de rapidez e quantidade de ações; as vírgulas separando essas ações constantes trazem a constância e fluidez das mesmas, inclusive as reações do amor. Sujeito indeterminado tanto para os seguidores como para os perseguidores, serão os mesmos?
"O amor cantou e bailou sem beber" (não era preciso - espaço em branco?). "Era sempre primavera nos seus modos e falas", como que apresentando a beleza e amorosidade do amor que se confirma nas suas reações.
"Foi sepultado no fim do mundo, que é para lá da memória", a morte do amor rompe com um mundo que não será o mesmo depois dele... memória coletiva que o faz perdurar mesmo que no sonho, na rima...
"..e ressuscitou ao terceiro dia" explicita a figura cristã que o amor personificou e vice-versa.

Espero ter percebido pelo menos um pouco do que se deveria....rs

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Primeiro texto

 Debutando nesse novo veículo de comunicação... Serei corajosa!